quinta-feira, 26 de maio de 2011

Entre os Nãos e o Sim




Não quero sonhar

Para não me iludir.



Não quero rir

Para não ter que chorar.



Não quero ir

Para não ter que voltar.



Não quero dormir

Para não ter que acordar.



Só quero, pura e simplesmente,

Amar.

 (Porque por trás de tantos rudes e insignificantes nãos, há sempre um sonoro e delicado sim! )

19/01/2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Meu encontro com Machado de Assis e outros gênios

 Reencontrando D. Casmurro


Naquela noite, cheguei um pouco atrasada à aula, que começaria pontualmente às 19h. O trânsito e a chuva são inimigos da pontualidade nesta cidade. Como muita gente havia faltado, sobravam cadeiras no círculo da sala, mas preferi sentar-me na mesma de sempre, dois lugares à direita do escritor, que sempre renegou o título de professor.
Como era de costume, colegas diziam seus poemas, entre um gole e outro d’água. A garrafa ficava sobre a mesa e, volta e meia, alguém se servia. Eu nunca tinha bebido daquela água. Nunca. Mas, naquela noite, havia corrido tanto que cheguei à casa esbaforida, a garganta seca implorando por um gole (na verdade, vários). Precisei de 3 copos para saciar-me.
Do canto da mesa onde me servia, tinha-se uma visão panorâmica do espaço. Observei mais atentamente as pessoas, notando que havia algo diferente. Não era só a chuva, o cinza gelado que embaçava os vidros e encobria as cores da primavera. Lá fora, ouço os sinos da catedral, ressoando na alma. Ninguém se abala. Continuam a recitar. Todos ali, recitando-se uns aos outros, entre memórias e goles d´água.
 - Adélia, que felicidade revê-la! Vejo que continua a versar lindamente, como nos velhos tempos, diz um Drummond entusiasmado.
- Isso é graças ao senhor, meu padrinho de letras.
- Não me chame de senhor que o senhor não está no céu coisa nenhuma. Lá no céu ninguém tem idade, isso eu posso garantir.
- E o poeta não envelhece, não é mesmo?
- Claro, claro.  Bela Clarice. Sempre preferindo a si mesma, não é?
-É o que me basta. Vim de um mistério, parti para outro, não foi você quem o disse?
- Disse, ou melhor, escrevi. E reescrevo. Ficaremos sem saber a essência do mistério.
Avancei alguns passos a fim de compreender melhor o que diziam. As conversas fluíam animadamente.
Guimarães Rosa e Manoel de Barros ocupavam-se em cumprimentos calorosos.
- Há quem diga que nossas escritas se parecem. – observa Guimarães Rosa
-Olhe, não sou dado a elogios, mas ser comparado a um escritor de sua magnitude certamente agrada meu coração. Juro que não vinha, pois não sou homem de aparições, mas sua presença me fez reconsiderar.
- Eu digo e repito que suas palavras são feito doce de coco. Assim mesmo. Não carece tanto salamaleque, que sou bicho do mato, feito tu. - sentenciou o mineiro, com uma pontinha de irritação.
 Nem precisava dizer.
Jorge Amado se aproxima, junto de Hilda Hist, que por sua vez compartilhava versos com Drummond, Clarice e Adélia.  Apressaram-se a dar boas vindas ao recém chegado.
 - Fez boa viagem, coronel? – perguntou Hilda
- Olhe, foi tranquila. Mas não me chame assim que sou um homem de bem, vice?
-É Verdade. Coronéis não são homens de bem. Na sua terra então...
-Vixe. Melhor nem falar. E tu, me diga: recebeste o livro autografado que te mandei?
-Como não? Recebi com muito gosto. Já não me pertence mais, porque sabe como é: dia desses apareceu uma universidade muito importante interessada nos meus arquivos, anos antes de eu ir-me embora. Tive de vender. Foram os seus, os de Lygia e de tantos outros. Mas foi por uma causa muito nobre, não foi? Afinal livro a gente não guarda na estante, guarda no coração.
Sobre Zélia, Jorge lhes explicou que não viera porque já não gostava muito de viagens para tão longe, mas que mandava lembranças a todos, fazendo questão de registrar esse encontro lá de onde estava, que não podia haver lugar melhor para tirar seus retratos do que de lá de cima.
Roberto Piva, o poeta anfitrião, começava a ficar um tanto impaciente, pois o convidado principal ainda não chegara.
-Estamos todos reunidos aqui buscando uma resposta. A resposta para a maior questão, a mais intrigante já lançada na literatura brasileira, aquela que nenhum de nós conseguiu responder.
- Mal posso esperar. Mas já passa das 20h. Será que vem mesmo? – observou Drummond, apreensivo.
- Decerto que sim, garantiu-me que vinha. E não é homem de faltar com a palavra.
Foi quando, repentinamente, perceberam que havia uma estranha ali.
- Quem é aquela senhorita? Não a conheço. Creio que não tenha sido convidada. – disse Piva.
- Talvez seja uma espiã – replicou Clarice.
- Ou jornalista! – palpitou Adélia.
-E tem diferença? – questionou Piva.
. Foi a obscena e amável Senhora D quem veio em meu socorro.
- Não sejam tão implicantes! Ela é das nossas, não estão vendo? Quem mais poderia ser nesse nosso templo? Está aqui para aprender, tanto quanto nós. A diferença é que ela é jovem, e nós já somos velhos e cansados. Ah, tenho tanta inveja de ti, menina. Tantas coisas ainda a descobrir, tantos mundos a criar, tantas palavras pela frente. Nós não temos mais essa sorte, não é, senhores?
- Como é teu nome, minha jovem? – interveio o lacônico Manoel de Barros.
- Fátima – respondi, quase sem voz.
-Um nome sagrado, sabia? Junte-se a nós, por favor – pediu Drummond, com a candura de sempre.
Santo Deus! Meus delírios já estavam indo longe demais. Pensei em sair dali imediatamente e procurar um psiquiatra, como já me aconselhou, certa vez, minha irmã. Parar definitivamente com essa mania de inventar histórias e confrontar-me com a realidade. Mas, definitivamente,  minha curiosidade era maior do que minha vontade de sair correndo.
A esta altura, íamos perdendo as esperanças de que o convidado ilustre aparecesse. Nossos rostos transpareciam decepção. Clarice, Manoel e Adélia estavam decididos a partir, só não tinham ido ainda porque Rosa insistia em detê-los.
Os sinos da igreja badalam mais uma vez. Raios e trovões ressurgem, mais raivosos.  É quando a luz pisca e um rosto é iluminado por um relâmpago.
- Aonde diabos eu vim parar! Querem que o mundo caia sobre a minha cabeça? – esbravejou o homem na porta, ensopado, enquanto chacoalhava sua sombrinha e pendurava a capa.
- Imaginem que fiquei atolado no caminho. Minha charrete quase desmontou-se inteira! Pobres cavalos! Bem que haviam me dito que esse mundo estava muito diferente, mas não pensei que fosse tanto.  Afinal, onde estão os bondes, as charretes? Não há mais cavalos? Esses transportes motorizados são uma temeridade, soube que matam muita gente de atropelamento. Isso sem falar na poluição que causam.
Na tentativa de acalmá-lo, alguém lhe oferece um copo d´água.
- Vê os meus bigodes, meu filho! E meus óculos! Mal consigo enxergar! - responde, indignado, desembaçando suas lentes com um lenço e passando-o pelo rosto. Não, acho que já tomei água o bastante, obrigado.
Seguiram-se alguns momentos de catarse total, interrompidos pela sua impaciência, a fazer jus a um Dom Casmurro.
-E então, nobres colegas. Vejo que nenhum de vós é de meu tempo, mas certamente conhecem minha obra.
Claro que sim, verdadeiras obras-primas da literatura – declara Guimarães Rosa
Sem dar muita importância aos elogios,o recém-chegado pediu que fossem logo ao que interessava.
Drummond pediu a palavra:
- Bem. Nós, que estamos aqui representando a todos os escritores brasileiros e admiradores de sua obra, convivemos com um enigma criado pelo senhor, de modo que o convocamos na tentativa de esclarecer o mistério que ronda as mentes dos seus leitores há mais de um século.
O velho parece surpreso:
- Enigma? De que se trata?
- O senhor não sabe?
- Não.
- Nem desconfia?
- Ora essa, se eu soubesse já o teria dito!
 E, quem diria, é Clarice quem toma as rédeas e trata de objetivar a coisa:
 - Mas afinal, a dúvida  que todos aqui querem esclarecer é: Capitu traíra ou não Bentinho?
Com um semblante aliviado, o escritor recosta-se no assento e ri. Um riso carregado de escárnio, que ocupa todo o espaço. Gargalhadas rompem as paredes da casa; atravessam a praça, o calçadão, até confundirem-se com os sinos da igreja.
 É quando o professor, que não gosta de ser tratado como tal, me traz de volta à aula num estalar de dedos.
- Ah, desculpe! Não ouvi sua pergunta. Pode repeti-la, por favor?
- Estávamos falando da obra de Machado de Assis, Dom Casmurro. Perguntei se você acha que Capitu traiu Bentinho ou não.
Naquele momento, a única resposta que me ocorreu foi a seguinte:
- Se o próprio Machado de Assis não se preocupou em responder a essa questão, quem sou eu para arriscar?

Texto escrito na oficina de criação literária da Escola Livre de Literatura de Sto. André, sob orientação do escritor José Geraldo Neres.







quinta-feira, 7 de abril de 2011

Definitivamente é o caos

Hoje o Brasil acordou com mais uma daquelas notícias que chocam e envergonham. No RJ, Um demente que, num dia ensolarado de outono, resolve sair de casa dando tiros para se distrair, como se praticasse um esporte. E o que é pior, dentro de uma escola. E mais gente inocente sendo morta, crianças, que nada tinham a ver com a revolta e com a infelicidade de um assassino. Dezenas de famílias arrasadas pela violência (olha ela aqui, de novo), sem sequer terem tido a chance de perguntar: por quê?
Claro que a chacina não é a primeira nem será a última. Com a tragédia de Columbine,em 1999, os americanos fizeram escola. Até filme, fizeram. Em 2003, o documentário Tiros em Columbine ganhou o Oscar de Melhor Documentário, o que, na minha humilde opinião, atribui aos autores do crime a indevida aura de heróis, servindo de inspiração para outros jovens insanos, mundo afora. Deixo aqui alguns versos como desabafo, mesmo sabendo que nenhuma palavra será suficiente para calar a pergunta das famílias que perderam seus filhos, sobrinhos e netos: por quê?

Notícias sobre o caos

Numa noite qualquer
Assisto ao telejornal,
É quando sentada, perplexa, reflito
E me pergunto:
Que faço eu neste mundo?
Que é torpe, triste,
Cruel, solitário.
Nascemos para viver no caos?
Suportando a exibição de chacinas constantes
E da cara-de-pau de nossos governantes?
O império da miséria e da (in) justiça dos homens,
Do revolver, que em descuido, surge
Revolto, contra a vida.
Da fúria das águas,
Dos ventos,
Que levam consigo
Bens e esperanças,
Deixando apenas desalento .
Onde mesmo o sol de cada dia é perigoso
Porque uma certa camada de ozônio se faz escassa
Não resistiu às agressões do homem...
Sobrevivemos vendo o mundo se acabar em guerra.
E milhares de vidas que se encerram
Num circo de horrores?
Aguardando a cura da AIDS e do Câncer
 Ao longo dos anos.
O fim do desemprego,
Com mesa farta e educação para todos.
Mas as boas notícias, essas sim, tardam a chegar .
Por quanto tempo mais
Espera a impotente humanidade?
Perdoe minha ansiedade.
É que o tempo
é o rei da impaciência.
Enquanto os ponteiros correm velozes
Há mais gente que chora,
Há mais gente que morre
Sem saber por quê...

Acho que está na hora de desligar a TV...





sexta-feira, 1 de abril de 2011

Hoje é dia de inventar verdades

Pode ser grande ou pequena. Pode ser bonita ou feia. Pode causar alivio  ou dor, ser o golpe de sorte ou de azar, a pedra ou o degrau. Pode ser plantada por amor, como muitos alegam para se safar,  mas, quase sempre, gera o ódio.
Já diz o ditado que uma mentira, contada muitas vezes, torna-se uma verdade. Ou que ela  nada mais  é do que  uma verdade inventada. Uns acham que ela é simplesmente injustificável seja qual for a circunstância; outros defendem que depende da situação. Eu sei – e quem é do bem também – que a verdade é sempre o melhor caminho, mas a mentira sempre está entre nós, nos tentando a escolher o caminho mais fácil. Nos dando asas para voar mais alto e assim nos machucarmos mais seriamente na hora da queda .
Está aí o 1º de abril para provar que a mentira conquistou seu lugar nesse nosso mundo politicamente incorreto. Eu ja contei uma, você também já contou e não existe nada mais comum e mais condenável, de forma que é justo que num único dia do ano a gente possa mentir sem culpa, fazer disso uma brincadeira de criança, uma piada engraçada, sem aquela ideia de natureza diabólica. Eu sempre fui ingênua o bastante para cair nas brincadeiras dos amigos e morria de raiva. Ao mesmo tempo, sentia um alívio quando a mentira era muito cabeluda. A verdade é que, se todo mudo fosse capaz de mentir somente hoje, talvez viver fosse menos complicado.  Por isso aproveite esse dia para dizer as verdades que não se pode dizer todos os dias, ou então, aquilo que você gostaria muito que fosse verdade,  depois solte o clássico: 1º de abril! Sem esquecer da gargalhada no final, certo? Ah, e claro, faça um esforço para não "inventar muitas verdades" no resto do ano.

terça-feira, 15 de março de 2011

Das catástrofes da vida (naturais ou não)


Fukushima , Japão. 11/03/2011. Foto: Kyodo News/AP
http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/terremoto-no-japao/

Diante de uma catástrofe, sempre nos sentimos impotentes, porque é algo que não podemos evitar; tão surpreendente quanto arrasador. As imagens que chocaram o mundo nesses últimos dias são assim. Embora não possamos nos acostumar com isso, é cada vez mais comum  ver  casas sendo arrastadas e pessoas sendo dizimadas, em SP, no Rio, no Chile, no Haiti e em tantas outras partes do mundo.

Agora, no Japão, logo no Japão, terceiro país mais rico do mundo e supostamente o mais preparado para desastres naturais? Foi mesmo de amargar ver os japas sem água, comida, passando pelos perrengues do terceiromundismo. Levei um choque de realidade.  Deve ser  porque eu não estava aqui na época de Hiroshima e Nagasaki.

Quando abatidos por uma tragédia em nossas vidas, geralmente temos a quem culpar: por exemplo, a perda de parentes para a violência urbana. A catástrofe não é a morte em si -  já que, por ironia ou não, esta faz parte da vida -  mas a forma como acontece, da maneira mais banal possível. Pode ser na saída de um bar, onde se busca diversão, ou de um banco, onde se cumpre uma obrigação de rotina. Nesses casos, culpamos o bandido, as drogas, a sociedade, enfim. Os mais religiosos ainda confortam-se culpando a Deus: "Foi a vontade Dele" - dizem, esperando que a justiça seja feita e que o tempo cure a ferida.

Mas a quem podemos culpar pelos desastres naturais? A Deus ou ao homem? Se foi Deus quem criou o universo, iria querer destruí-lo? E nós, estamos cuidando dele o suficiente? Será que teríamos poder para evitar isso, mesmo cada um fazendo a sua parte? Essas são perguntas sem resposta. A única coisa que é possível saber pelos acontecimentos no Japão é que nem toda a sabedoria do homem é capaz de conter uma força maior, que alguns chamam de divina, que nada tem a ver com nossos atos. Outros afirmam que são as desfeitas do homem que estão causando tantos danos, conforme já citei aqui num poema.  Na verdade, pouco importa de onde essa força venha, mas o estrago que ela causa.  A catástrofe às vezes é um mal necessário para despertarmos para a vida. Vamos rezar pela pronta recuperação do Japão e de seu povo tão sábio.



terça-feira, 1 de março de 2011

Para os próximos 27 anos


O fim de fevereiro quase passou despercebido. Se não tivesse olhado o calendário antes de postar... desculpem se perdi o timing, mas para mim, fevereiro demora a acabar - apesar de ser o mês mais curto do ano. É o mês do aniversário, o fechamento do ciclo.
Agora são, portanto, 27 primaveras somando e subtraindo amigos, amores, muitos questionamentos, tristezas e dezenas, centenas, milhares de desejos. Fiquei o mês inteiro pensando no quê poderia postar. Tinha de ser especial. Uma retrospectiva? Não tenho memória para isso. Uma figura? Impossível sintetizar tantos sentimentos numa imagem. Uma música? Hum... difícil escolher. Um pedido, claro! Dia de aniversário é dia de pedir mesmo; por você e pelas pessoas que você ama, e vamos combinar: a gente nunca consegue escolher um só pedido na hora de apagar as velas. Todo ano é o mesmo dilema. Então resolvi não pedir nada diante das velinhas e cortei o  bolo de cima para baixo, contrariando todas as mães  que dizem que os desejos só se realizam se a primeira fatia do bolo for cortada ao contrário. E fica aqui registrado o que eu quero  - não  é segredo porque não é só para mim - nos próximos 27 anos ou minutos ou segundos...o quanto antes Ele puder, melhor.

PS: Sinta-se à vontade para acrescentar o seu pedido, quem sabe Ele não dá uma olhadinha aqui de vez em quando ?

Querido Deus,
Sei que não devemos querer muito.
E nem pedir demais para não sobrecarregá-lo.
Mas é que já se passaram 27 anos desde que cheguei aqui.
Eu pouco vivi
Mas tanta coisa eu vi.
De se orgulhar e de se envergonhar.
Por isso, faço essa humilde prece.
Seria demais pedir um mundo melhor para os próximos 27?
Um em que a gente possa viver sem medo e sem segredo?
Onde andar pelas ruas não seja um desassossego?
Onde não seja sonho pensar
Que viver é um direito e não um mero golpe de sorte
Que jamais poderá ser interrompido
Violentamente,
Sorrateiramente, pela morte?
Seria possível que não sofrêssemos mais por coisas tão pequenas?
E que, diante do espelho, pudéssemos refletir apenas rostos tranquilos
Ao invés de agasalhar monstros aflitos?
Seria justo pedir que todos tivessem o suficiente para comer e ter boa educação?
Para que não dependêssemos tanto da compaixão
Dos homens que dela carecem.
Por fim,  se o Senhor achar que é muito,
Posso resumir em apenas um pedido essa oração. 

Nos dê a paz que perdemos
Sem nunca ter encontrado.
Pois ela é o único caminho
Que nos levará ao começo e ao fim .
De uma revolução
Não da revolução de mentira
Aquela em que se mata e morre
Que só causa medo e desilusão.
A verdadeira revolução
É aquela que está dentro de nós.
Que nos abraça e vibra.
E faz soltar a voz.







sábado, 5 de fevereiro de 2011

O BBB e seus bichos escrotos

Antes de qualquer coisa, quero dizer que não sou imune ao BBB. Isso quer dizer que, não raro, dou uma espiadinha e às vezes até voto para tirar um ou outro mais inconveniente do jogo e participar do sorteio do carro. Não adianta negar, todos nós temos um lado voyeur que insiste em observar a vida alheia, nem que seja só para criticar e dizer que é contra. Quando nos oferecem algo em troca, então, a tentação é quase irresistível.
Dito isso, posso expressar meus sentimentos aos ratos de laboratório  - ou seria melhor chamá-los de micos de circo? - remanescentes que estão lá na Casa de Vidro, ambiente agradabilíssimo, por sinal. Um aquário instalado dentro de um shopping center.
Realmente não poderia haver local mais adequado para o que se pretende ali.
Num centro de diversão e lazer, por onde passam milhares de pessoas todos os dias, aquelas pobres criaturas são a atração principal. Comprar pra quê? Ir ao parque, ao cinema? Nem pensar!  Basta passar pelo corredor e observar...  isso, sem gastar um centavo. Só não vale esquecer a máquina fotográfica. Quem sabe levar um cartazinho só pra fazer um efeito e sair bem na fita. E mais do que tudo, gritar, gritar muuuito pelos ídolos (?) que até um mês atrás ninguém sabia que existiam  e até agora não sabemos nem quem são.
Do lado de dentro, num calor de 40ºC, imagino, as cobaias fazem de conta que está tudo divino, maravilhoso. Sorriem, mandam beijos, plantam bananeira, cantam e tiram a roupa.  Exibem-se como se estivessem mesmo numa vitrine de pet shop. Disputam as atenções dizendo: “Eu sou o mais bonito, o mais engraçado, o mais esperto. Me levam para a casa”. O bichinho mais “talentoso” há de conquistar o prêmio tão desejado, que é... adivinhem: novamente o confinamento.
De fato, nada muda. No cubículo de vidro ou na mansão mais vigiados do Brasil, todos são cobaias que se sujeitam às situações mais absurdas para, quem sabe, alcançar o pote de ouro no final do arco-íris. Estão sendo testados para descobrir até onde o ser humano é capaz de chegar por um quinhão de dinheiro – quantia considerável, é verdade - além de uma notoriedade instantânea e descartável. Já nós, telespectadores inocentes, também somos parte da experiência, para saber até onde vai a nossa tolerância com o ridículo. E essa, pelo jeito,vai looonge.