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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Remexendo as gavetas e os arquivos...



... Encontrei esses dois textos que escrevi faz tempo, sobre São Paulo. Um pouco tardia essa minha homenagem, mas acho que está valendo ainda.

Arborescendo
           
Ei, jovem, o que faz aí, sentado neste banco? Aprecia a paisagem? Eu também. Você não sabe, mas eu vejo, ouço e sinto tudo o que se passa a meu redor. Se pudesse falar, traria problemas para muita gente. Não que eu quisesse ser fofoqueira, mas algumas coisas teriam de ser  reveladas, afinal são quatrocentos e cinqüenta anos de história! Me diga com franqueza, meu rapaz, você seria capaz de guardar tantos segredos? Ora, que pergunta! Para que serve aos humanos o dom da fala, senão para contar seus “causos” a todo mundo?
              Estou aqui desde o inicio de tudo.  Era só uma sementinha quando fui plantada em 1554, por algum jovem jesuíta que quis embelezar o ambiente e cultivar a natureza, na época em que esta cidade ainda era uma vila. Aí o tempo foi passando, eu fui crescendo, o lugar foi se ampliando, a população também; fez-se então o progresso. E veja só que crueldade: fui perdendo minhas irmãzinhas, que como eu, eram verdes, frondosas e só faziam purificar o ar. Para cada fábrica construída, foi necessário destruir várias de nós de uma só vez. A ganância dos homens é sempre maior do que o desejo de preservar a natureza.
            Felizmente, hoje eu e minhas companheiras temos um lar, o parque mais famoso da cidade. Aqui no Ibirapuera, as pessoas se divertem, cuidam da saúde, respiram ar puro e arte. Está vendo aquela grande concha branca ali? É a Oca, cartão postal que nos foi dado pelo mestre Oscar Niemeyer. Lá dentro, já foram expostas obras de artistas do mundo inteiro! E por falar em artista, toda semana tem um naquele palco. Só músicos de primeira linha se apresentam ali. Eu, que tenho os pés fincados no chão, com o perdão da expressão, não posso dançar, mas com a boa melodia, meu amigo vento se alegra e vem chacoalhar um pouquinho os meus galhos...
            ...Ah, sabia que eu também sirvo de cupido? Olhe meu tronco bem de perto e você verá vários corações com flechinhas desenhados. Confesso que no começo não gostava muito porque o canivete machuca...e os humanos quase sempre se esquecem que nós também somos seres vivos e podemos sentir dor... depois fui me acostumando, ainda mais agora, com essa moda da tatuagem. Aquele casal que caminha de mãos dadas, por exemplo, deu seu primeiro beijo aqui, debaixo da minha copa, e logo, logo subirá ao altar. Tem um outro que se encontrou exatamente aí, onde você está sentado, e nunca mais se separou; e olha que isso foi há uns sessenta anos! É uma pena que os casais desta geração não resistam ao tempo tanto quanto os velhos e as árvores.          
            Está gostando do que vê, amigo? Pois eu lamento informar que nem tudo aqui são jardins e flores. Por vezes, os maus ventos sopram,  trazendo gente ruim. Nem queira saber quantas pessoas eu já vi sendo maltratadas por esta mata adentro. Nessas horas, eu realmente gostaria de poder ajudar a quem tanto precisa, mas o que fazer se meu pai, que mora lá em cima, não me deu voz para ser ouvida?
            Em compensação,  nunca precisarei me preocupar com o aumento de impostos e com o trânsito maluco, nem com as ruas esburacadas e  a fila de desempregados; essas coisas que comentam por aqui.  Sinto muito te dizer isso mas... um dia você saberá do que estou falando... da vida do paulistano. Olha o que acontece: só de pensar nisso, derrubo toda a minha folhagem!
            Viu como há diversas vantagens em ser árvore? Tenho a felicidade de poder contemplar este cenário todos os dias, e de, aos quatrocentos e cinqüenta anos de idade, continuar sendo tão bela quanto era aos quinze. Ainda sou bela, não sou?
            Ei, cadê você ? Ah, já se foi! Mas não importa; muitos outros virão, como vieram ontem, hoje e sempre... por mais quatrocentos e cinqüenta anos.  


Imagens Paulistanas

Nos de folga, são raros os habitantes de São Paulo que optam por fazer um passeio pela cidade e registrar o que nela há de mais atraente. Arriscaria até dizer que poucos paulistanos conhecem bem o lugar onde vivem, o que é uma pena. Mas eu, como cidadã nata e orgulhosa, faço essa opção sempre que posso. Cada dia visito um lugar diferente e vou reconstruindo em minha mente a São Paulo moderna. O dia ensolarado é propício, não porque não goste das nuvens acinzentadas que lhe renderam o apelido de “terra da garoa”, mas porque a luz do sol oferecerá melhores condições para registrar as imagens paulistanas.
            Hoje é dia de visitar a Praça da Sé. Avisto a catedral imponente e solitária, ainda que rodeada por milhares de pessoas. Acompanho os passos apressados dos transeuntes, observando desde o gari, que faz seu trabalho de cabeça baixa, até o executivo que caminha apressado recolhendo sua pasta junto ao corpo, com medo de ser assaltado. Motivos para isso não faltam, há pedintes por todos os lados. Mas aqui, as pessoas já se acostumaram a ter medo.
            A meu lado, um vendedor ambulante grita para atrair freguesia. Eles vendem de tudo: chocolate, cachorro quente, panelas, chaveiros, bijouterias, roupas, rádios de pilha... algumas pessoas se aproximam, olham atentas mas não compram nada; outras animam-se e começam a negociar um produto. Há também os artistas de rua, que cantam, tocam instrumentos, viram cambalhotas, contam piadas. Vale tudo para ganhar a vida.
            Começo a recortar o cenário através da lente da câmera: primeiro os protagonistas da história, o povo, com sua expressão sofrida e sorridente; depois os elementos inanimados da cena: a  clássica catedral, as árvores, o banco da praça, o jardim. E como o tempo passa! Quando vejo já é hora de seguir para a próxima parada: A Avenida Paulista. Vale a pena conhecer cada detalhe do local que é muito mais do que o centro financeiro da terceira maior cidade do planeta. Um lugar que, contrastando com a seriedade dos edifícios comerciais, concentra arte e lazer. Tal diversidade lhe confere o título de ponto mais charmoso de São Paulo. Em frente ao prédio do Masp, mais uma vez, recorto o cenário. Depois o Mam, as galerias, o Parque Trianon e sua paisagem natural, imagens que merecem ser registradas. Os camelôs e mendigos continuam ali, já não sei bem se como protagonistas ou coadjuvantes, representando a face mais triste daquele lugar.
Na Avenida Paulista, as desigualdades saltam aos olhos mais desatentos. Porém, até os mais atentos ficam surpresos ao cair da tarde, enquanto, pouco a pouco, a escuridão toma conta do céu, brigando com as luzes fluorescentes e os letreiros em neon que se destacam noite adentro. Era o sinal que faltava para anunciar a festa .
             É quando os povo começa a  se agitar ao som do rock e do pop das casas noturnas; a tarantela chega aos ouvidos dos freqüentadores das cantinas italianas com aquele sotaque que é nossa marca registrada. E como não falar do samba, que há alguns anos era o campeão entre os ritmos que embalavam os boêmios nos bares da cidade. São Paulo abriga todos os gostos e estilos. Por aqui, os anos passam, mas as tradições persistem.
            São Paulo é tudo isso. É o antigo e a vanguarda, o suor do trabalho de dia e a exaltação dos sentidos à noite, é a consolação e o paraíso; é choro e é riso; é também futebol, é paixão nacional. Assim é composto meu retrato, com a força destas contradições que  inspiram o povo e a arte  mundo afora. Por isso me orgulho de ser parte da energia que faz pulsar o coração do Brasil.   
 
  



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Bye, Bye, 2011 !

Tenho visto no Facebook e fora dele muita gente se despedindo de 2011 com alívio e até com certo rancor. Pelo visto esse ano foi difícil pra muita gente, não só pra mim. Eu chorei, duvidei,  fracassei, sofri. Só não digo que tenha sido um péssimo ano porque tive muitos aprendizados. Um para cada mês do ano:

  • Aprendi a não esperar uma chance -  as oportunidades não vêm até você, é preciso que você vá até elas -  ou as crie! 
  • Aprendi que quando algo não dá certo, sempre é tempo de recomeçar.
  • Que um pássaro na mão vale mais do que mil voando.
  • Que a solidão é uma péssima companhia (óbvio).
  • Que ter um amigo verdadeiro por perto é mais importante do que ter 300 nas redes sociais – os quais você  nunca vê.
  • Que aprender é a melhor saída quando se está num beco sem saída.
  • Que a paciência é uma virtude das mais preciosas e que aceitar a vida como ela é talvez seja o melhor atalho para a felicidade.
  • Que fazer muitos planos pode ser uma forma de esconder o medo, resultando em inércia e fracasso.(em alguns casos, seguir a intuição dá mais certo!)
  • Que dinheiro não é tudo, mas  faz uma falta danada.
  • Aprendi que o pior sempre antecede o melhor. Se não fosse assim, não haveria o prazer da conquista, não é mesmo?
  • Que o dia certo para realizar seus sonhos é hoje, não amanhã.
  • Mas que amanhã sempre pode ser melhor.

Então, que venha 2012 com dias melhores para todo mundo e que possam durar para sempre.
Beijos a todos.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Lançamento da coletânea Crônico! - Crônicas Brasileiras Ilustradas


É com muita alegria que compartilho com vocês o lançamento da coletânea Crônico! - Crônicas Brasileiras Ilustradas, da editora Multifoco. Participo dessa obra com o texto "Recomendações de uma Amiga". Foram selecionados 18 novos novos autores de diversos estados: RS, PR, RJ, MG, BA, PE e SP.  É uma honra estar entre eles, publicando uma crônica pela primeira vez. O lançamento será dia 12/11, no RJ. Estão todos convidados!
Por enquanto, segue o release, apenas para vocês terem um gostinho !
Quem quiser adquirir o livro, fale comigo: mailto:fakadri@hotmail.com  Vale a pena! 

Editora Multifoco lança coletânea de crônicas ilustradas



Com lançamento previsto para o dia 12 de novembro, a coletânea Crônico! (R$28, Ed. Multifoco, 100 páginas.), organizada pelos escritores Jana Lauxen e Beto Canales em parceria com a Editora Multifoco, reúne a nova safra de cronistas e ilustradores brasileiros.
São, ao total, 18 crônicas e 18 ilustrações, que reúnem o melhor de todo o material recebido durante a seletiva, que buscou, pelos quatro cantos deste Brasil, cronistas e ilustradores dispostos a colocar seus textos e ilustrações na avenida:
- Existem excelentes escritores e ilustradores em nosso país; infelizmente (e injustamente) em sua maioria ainda desconhecidos. Um dos principais objetivos da Editora Multifoco é encontrá-los e publicá-los. Uma forma de colocar leitores em contato com autores que, através dos meios de comunicação convencionais, nunca teriam a oportunidade de conhecer. – diz Jana Lauxen, uma das organizadoras da coletânea.
A obra conta com autores do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco  e Bahia, o que, segundo a organizadora da coletânea, só vem a somar no resultado final da obra, que considera pra lá de satisfatório.
- O Brasil é um país imenso, cheio de culturas diferentes e, naturalmente, de realidades e pontos de vista também diferentes. Reunir autores de diversos lugares do Brasil, cada qual com sua visão sobre situações completamente distintas entre si, trazem ao leitor um panorama atualizado da realidade brasileira. Além do que, é muito interessante descobrir o que pensam estes novos escritores que, de uma maneira ou de outra, também estão escrevendo hoje o futuro da literatura no Brasil.
Os textos que compõem a obra discorrem sobre os mais variados assuntos, indo desde literatura, Deus, galinhas, maconha e futebol, até festas, esperas, pêssego, vida e morte – todos retratados também por meio dos quatro ilustradores, que deram traço e forma aos textos que receberam.
O resultado desta miscelânea de autores, ilustrações, textos e temas poderá ser conferido a partir do dia 12 de novembro, data do lançamento da obra, que acontecerá no Rio de Janeiro, no Espaço Multifoco (Av. Mem de Sá, 126 - Lapa), entre 18h e 21h.
Um livro que, sem dúvidas, sua estante merece guardar.


domingo, 9 de outubro de 2011

Desconstruindo a relação (um poema-diálogo ou vice versa)

 
 
Eu te amo
Nossa, há quanto tempo...
É. Já tinha esquecido.
Pois é, percebi.
E você?
Eu o quê?
Nada, não.
Esfriou.
Tá chovendo lá fora.
Que bom.
Bom que o ar fica mais respirável.
Mas parece que vem tempestade.
Que nada, olha lá o arco-íris...
Cadê?
Longe. Tem que chegar bem perto pra ver.
Essa minha miopia tá me deixando cego.
É. Tem que ver.
Ver o quê?
O médico.
Ah, sim... o médico.
E você?
Eu o quê?
Tá bem?
Tô. E você?
Também. Quer dizer,o médico disse...
...Que bom.
Tô com sono.
Não tá esquecendo de nada?
Ah, sei. Tá aqui o dinheiro.
Tá.
Não vou poder ficar para jantar.
Como assim? Você prometeu.
Esqueci.
Pois é, percebi.
Negócios. Marcaram em cima da hora.
Tá. Já esqueci .
Esqueceu o que?
O que você não lembrou.
Minha memória anda péssima.
Tem que ver.
Nem o médico resolve.
Quem falou em médico?
Tenho que ir.
Vai.
Volto logo.
Volta, não.
Como?
Nada, não.
Fica com deus
Prefiro o diabo.
Te trago um sorvete?
Dieta!
Ah, sempre ela. Vai ficar doente assim.
Quem sabe assim você se cure.
Curar de que?
Da cegueira, do esquecimento.
Meu suéter. Quase esqueci.
Não, disso você não esquece. Vê se não esquece as malas.
Que malas? Não vou viajar.
Vai sim, amor. Você esqueceu.
Que bom que eu tenho você pra me lembrar.
É, se não sou eu...
Mas...pra onde é que eu vou mesmo ?
Pra um lugar onde você não vai ter nada para lembrar. Não é um paraíso?
É... parece bom...
E você?
Eu o quê?
Não vem comigo?
Se você não vai ter mais nada pra lembrar, não vai precisar mais de mim.
É, tem lógica.
Você tinha razão.
Sobre o quê?
O ar agora vai ficar bem mais respirável.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A vida lá fora não é um ringue

Todo mundo vidrado nesse negócio de UFC. Eu sempre ouvia falar, mas nunca tinha visto . Sabia apenas que era uma luta tipo vale-tudo, no esquema de sempre: 2 homens se engalfinhando até que vença o mais forte. Um dia, zapeando a TV, parei nela. Lutavam Anderson Silva e um japonês franzino. Era praticamente luta ganha. E claro que o grandalhão da voz fina ganhou (voz que só fui ouvir no dia seguinte, no Faustão, onde a “estrela" do UFC foi julgar  - vejam  só! -  o quadro Dança dos Famosos).
Tudo bem. Não sou fã de esportes de luta. Sempre pensei em como alguém, por mais atleta que seja, pode gostar de apanhar ou bater. E como isso pode ser considerado esporte? O fato de o UFC resgatar os antigos vale-tudo e de ver toda essa vibração, a comoção popular  em torno de alguém apanhando, sendo derrubado, com sangue escorrendo do nariz e do supercílio  me dá um bocado de aflição e até medo. Pode ser  por ignorância minha, afinal, trata-se de uma competição esportiva cujo objetivo não é incitar a violência, dirão os seguidores fanáticos.  Mas é impossível não pensar nessa questão: o quanto esse vale-tudo influencia ou pode influenciar nas manifestações violentas que vemos aos montes fora dos ringues? A atração por esse esporte seria uma demonstração de que as pessoas estão cada vez  mais íntimas da violência?
O japonês magrelo já estava caído no chão, com a cara completamente ensanguentada e o  Anderson Silva só parou de dar porrada quando o juiz apitou. E se o cara tivesse desmaiado? Como é que o juiz sabe a hora exata de parar? E se o adversário, já dominado e moribundo, não tem condições de sinalizar? Bem, não sou uma expert no assunto. E não tenho imparcialidade alguma ao falar dele porque sou muito sensível a tudo que envolve agressividade e sangue (não poderia ser médica de jeito nenhum!) Mas merece uma reflexão, não só a respeito do UFC, mas sobre outros esportes que fazem uso de violência e até maus-tratos, como é o caso do rodeio. No UFC, os lutadores ainda podem se defender, enquanto que no rodeio, os pobrezinhos dos bois são tão bravos quanto indefesos. Se pudessem escolher entre participar ou não, acredito que fariam a segunda opção.
Parece que os humanos, esses sim,  cada vez mais celebram a violência. Estamos vivendo numa grande arena, e salve-se quem puder. Isso me lembra de uma das canções mais perfeitas que já ouvi na vida, que, não por acaso, chama-se Perfeição, e é do grande Renato Russo.  A letra é bem objetiva: Vamos celebrar a estupidez humana/ a estupidez de todas as nações/ o meu país e sua corja de assassinos/ covardes/estupradores e ladrões... e por aí ele segue, dizendo um monte de outras verdades que não eram ditas, com a veia irônica que sempre foi sua. Renato ficou famoso por isso. Dá para perceber que, infelizmente, a sociedade não mudou muito desde a época em que a música foi lançada (18 anos atrás!).  Enfim, é só uma opinião. 



Perfeição :
Música  de Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá
Letra: Renato Russo
Álbum: O descobrimento do Brasil (1993).

 



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Em busca da fórmula secreta

Ansiedade, boca seca, mãos suando frio e um pouco de gagueira no início. Até que a coisa começa a fluir, meio no automático. Ele pergunta, você responde, enaltecendo as qualidades e tentando esconder os defeitos. Presta a maior atenção na conversa (sempre tomando o cuidado para não falar demais nem de menos).  Então vocês se despedem, como se já se conhecessem há anos... ou como se nem tivessem se conhecido.
 Depois, paciência... a espera é infinita. O telefone que não toca, o e-mail que não chega..  Passa-se 1 semana, 10 dias. Você não aguenta mais esperar. Só que quando toma a iniciativa, descobre que não foi dessa vez.
Essa poderia ser a descrição perfeita para um primeiro encontro não é? Mas é só mais uma entrevista de emprego.
Não é razoável constatar que o que vivemos e sentimos ao passar por essas situações – do primeiro encontro e da entrevista de emprego -  seja bem parecido, uma vez que o lado profissional e afetivo tem peso igual nessa difícil equação da felicidade em nossas vidas?
Olha só: em ambos os casos têm que rolar a química. Mas ô formulazinha complicada! Às vezes você acha que pôs todos os ingredientes no lugar e na hora certas, mas o resultado não sai como o esperado. Por outro lado, nada impede que aconteça o contrario também, afinal não há lógica 100% correta quando se trata de seres-humanos.
Pena que não há manual com passo-a-passo, embora a grande maioria insista em dizer o contrário. É claro que existem dicas gerais em relação à aparência e o comportamento, mas isso é o máximo em que se pode confiar. O resto depende exclusivamente de você e da pessoa com quem você está interagindo - e digo isso sem querer desmerecer o trabalho dos populares “gurus” de carreira e da paquera. O que eles consideram mais importante – e não é novidade para ninguém -  é ser quem você é, e, se a química rolar, ótimo! Se não, você risca aquele nome do seu caderninho e parte para o próximo, porque afinal de contas a fila tem que andar. Mas que podia ter uma fórmula exata, isso podia!
Então, inconformada que sou, com a ajuda do Santo Google encontrei uma que, se não for exata, pelo menos te leva ao caminho certo:
Motivação + Treino + Autocontrole + Sorte = Sucesso

Motivação para continuar firme e não desistir no meio do caminho;
Treino para poder errar bastante, e completar suas 10 mil horas (de trabalho, com 8h/dia, totaliza 3,5 anos) - no meu caso, já estou bastante adiantada, só que em horas de entrevistas;

Autocontrole para não tomar decisões precipitadas e jogar tudo por água abaixo;

Sorte porque o meio que você vive contribui para seu sucesso.
E como se consegue tudo isso? Com atitudes positivas. Acho que não há outro jeito. Alerto que essa fórmula está em fase de testes. Se não funcionar, eu aviso.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Definitivamente é o caos

Hoje o Brasil acordou com mais uma daquelas notícias que chocam e envergonham. No RJ, Um demente que, num dia ensolarado de outono, resolve sair de casa dando tiros para se distrair, como se praticasse um esporte. E o que é pior, dentro de uma escola. E mais gente inocente sendo morta, crianças, que nada tinham a ver com a revolta e com a infelicidade de um assassino. Dezenas de famílias arrasadas pela violência (olha ela aqui, de novo), sem sequer terem tido a chance de perguntar: por quê?
Claro que a chacina não é a primeira nem será a última. Com a tragédia de Columbine,em 1999, os americanos fizeram escola. Até filme, fizeram. Em 2003, o documentário Tiros em Columbine ganhou o Oscar de Melhor Documentário, o que, na minha humilde opinião, atribui aos autores do crime a indevida aura de heróis, servindo de inspiração para outros jovens insanos, mundo afora. Deixo aqui alguns versos como desabafo, mesmo sabendo que nenhuma palavra será suficiente para calar a pergunta das famílias que perderam seus filhos, sobrinhos e netos: por quê?

Notícias sobre o caos

Numa noite qualquer
Assisto ao telejornal,
É quando sentada, perplexa, reflito
E me pergunto:
Que faço eu neste mundo?
Que é torpe, triste,
Cruel, solitário.
Nascemos para viver no caos?
Suportando a exibição de chacinas constantes
E da cara-de-pau de nossos governantes?
O império da miséria e da (in) justiça dos homens,
Do revolver, que em descuido, surge
Revolto, contra a vida.
Da fúria das águas,
Dos ventos,
Que levam consigo
Bens e esperanças,
Deixando apenas desalento .
Onde mesmo o sol de cada dia é perigoso
Porque uma certa camada de ozônio se faz escassa
Não resistiu às agressões do homem...
Sobrevivemos vendo o mundo se acabar em guerra.
E milhares de vidas que se encerram
Num circo de horrores?
Aguardando a cura da AIDS e do Câncer
 Ao longo dos anos.
O fim do desemprego,
Com mesa farta e educação para todos.
Mas as boas notícias, essas sim, tardam a chegar .
Por quanto tempo mais
Espera a impotente humanidade?
Perdoe minha ansiedade.
É que o tempo
é o rei da impaciência.
Enquanto os ponteiros correm velozes
Há mais gente que chora,
Há mais gente que morre
Sem saber por quê...

Acho que está na hora de desligar a TV...





terça-feira, 15 de março de 2011

Das catástrofes da vida (naturais ou não)


Fukushima , Japão. 11/03/2011. Foto: Kyodo News/AP
http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/terremoto-no-japao/

Diante de uma catástrofe, sempre nos sentimos impotentes, porque é algo que não podemos evitar; tão surpreendente quanto arrasador. As imagens que chocaram o mundo nesses últimos dias são assim. Embora não possamos nos acostumar com isso, é cada vez mais comum  ver  casas sendo arrastadas e pessoas sendo dizimadas, em SP, no Rio, no Chile, no Haiti e em tantas outras partes do mundo.

Agora, no Japão, logo no Japão, terceiro país mais rico do mundo e supostamente o mais preparado para desastres naturais? Foi mesmo de amargar ver os japas sem água, comida, passando pelos perrengues do terceiromundismo. Levei um choque de realidade.  Deve ser  porque eu não estava aqui na época de Hiroshima e Nagasaki.

Quando abatidos por uma tragédia em nossas vidas, geralmente temos a quem culpar: por exemplo, a perda de parentes para a violência urbana. A catástrofe não é a morte em si -  já que, por ironia ou não, esta faz parte da vida -  mas a forma como acontece, da maneira mais banal possível. Pode ser na saída de um bar, onde se busca diversão, ou de um banco, onde se cumpre uma obrigação de rotina. Nesses casos, culpamos o bandido, as drogas, a sociedade, enfim. Os mais religiosos ainda confortam-se culpando a Deus: "Foi a vontade Dele" - dizem, esperando que a justiça seja feita e que o tempo cure a ferida.

Mas a quem podemos culpar pelos desastres naturais? A Deus ou ao homem? Se foi Deus quem criou o universo, iria querer destruí-lo? E nós, estamos cuidando dele o suficiente? Será que teríamos poder para evitar isso, mesmo cada um fazendo a sua parte? Essas são perguntas sem resposta. A única coisa que é possível saber pelos acontecimentos no Japão é que nem toda a sabedoria do homem é capaz de conter uma força maior, que alguns chamam de divina, que nada tem a ver com nossos atos. Outros afirmam que são as desfeitas do homem que estão causando tantos danos, conforme já citei aqui num poema.  Na verdade, pouco importa de onde essa força venha, mas o estrago que ela causa.  A catástrofe às vezes é um mal necessário para despertarmos para a vida. Vamos rezar pela pronta recuperação do Japão e de seu povo tão sábio.



terça-feira, 1 de março de 2011

Para os próximos 27 anos


O fim de fevereiro quase passou despercebido. Se não tivesse olhado o calendário antes de postar... desculpem se perdi o timing, mas para mim, fevereiro demora a acabar - apesar de ser o mês mais curto do ano. É o mês do aniversário, o fechamento do ciclo.
Agora são, portanto, 27 primaveras somando e subtraindo amigos, amores, muitos questionamentos, tristezas e dezenas, centenas, milhares de desejos. Fiquei o mês inteiro pensando no quê poderia postar. Tinha de ser especial. Uma retrospectiva? Não tenho memória para isso. Uma figura? Impossível sintetizar tantos sentimentos numa imagem. Uma música? Hum... difícil escolher. Um pedido, claro! Dia de aniversário é dia de pedir mesmo; por você e pelas pessoas que você ama, e vamos combinar: a gente nunca consegue escolher um só pedido na hora de apagar as velas. Todo ano é o mesmo dilema. Então resolvi não pedir nada diante das velinhas e cortei o  bolo de cima para baixo, contrariando todas as mães  que dizem que os desejos só se realizam se a primeira fatia do bolo for cortada ao contrário. E fica aqui registrado o que eu quero  - não  é segredo porque não é só para mim - nos próximos 27 anos ou minutos ou segundos...o quanto antes Ele puder, melhor.

PS: Sinta-se à vontade para acrescentar o seu pedido, quem sabe Ele não dá uma olhadinha aqui de vez em quando ?

Querido Deus,
Sei que não devemos querer muito.
E nem pedir demais para não sobrecarregá-lo.
Mas é que já se passaram 27 anos desde que cheguei aqui.
Eu pouco vivi
Mas tanta coisa eu vi.
De se orgulhar e de se envergonhar.
Por isso, faço essa humilde prece.
Seria demais pedir um mundo melhor para os próximos 27?
Um em que a gente possa viver sem medo e sem segredo?
Onde andar pelas ruas não seja um desassossego?
Onde não seja sonho pensar
Que viver é um direito e não um mero golpe de sorte
Que jamais poderá ser interrompido
Violentamente,
Sorrateiramente, pela morte?
Seria possível que não sofrêssemos mais por coisas tão pequenas?
E que, diante do espelho, pudéssemos refletir apenas rostos tranquilos
Ao invés de agasalhar monstros aflitos?
Seria justo pedir que todos tivessem o suficiente para comer e ter boa educação?
Para que não dependêssemos tanto da compaixão
Dos homens que dela carecem.
Por fim,  se o Senhor achar que é muito,
Posso resumir em apenas um pedido essa oração. 

Nos dê a paz que perdemos
Sem nunca ter encontrado.
Pois ela é o único caminho
Que nos levará ao começo e ao fim .
De uma revolução
Não da revolução de mentira
Aquela em que se mata e morre
Que só causa medo e desilusão.
A verdadeira revolução
É aquela que está dentro de nós.
Que nos abraça e vibra.
E faz soltar a voz.







sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Em 2011, abra os seus armários!

A melhor coisa que fiz por mim nesses últimos tempos foi trocar os móveis do meu quarto. Eles já estavam velhos demais, corroídos pelos cupins. A cômoda, antiga,resolveu cair de vez, deixando as minhas gavetas literalmente no chão. Dá para imaginar como é escolher uma roupa nessa situação? Fica um pouco mais complicado do que já é. Juro que tinha preguiça de sair de casa ao pensar que teria que tirá-las uma de cima da outra para achar “aquela” peça; operação delicada.  Então, vi que não tinha outro jeito, era trocar os armários ou não sair mais de casa.
Que felicidade! Ter móveis novinhos só para mim! Só para mim, vírgula, ainda tenho que dividi-los com minha irmã, até que o namoro/noivado de 13 anos se converta em casório, mas vai saber quando...o apartamento que ela comprou já deveria ter sido entregue em dezembro, e a obra está bem atrasada. Enfim, vamos rezar para que até julho o prédio esteja de pé, não é, maninha?
Voltando aos armários. Logo percebi que a felicidade da nova aquisição se transformaria, se não em infelicidade, em um transtorno maior que o esperado. Para começar, as peças chegam antes do montador e tem que haver um espaço para botar toda aquela parafernalha até eles chegarem. Só que ninguém aqui em casa teve disponibilidade para desmontar o meu quarto e o dos meus pais. –Ih, dona, então onde vamos colocar as peças? – perguntaram. Onde? Minha casa é compacta, não tem lugar, só se for lá na garagem, respondeu minha mãe, abalada. – Ah dona, se for lá na garagem pode pegar chuva e aí a madeira vai empenar.
Empenar?! Como assim? De um dia para o outro? Não tínhamos outra saída. Antes que os caras começassem a ficar tensos, mamãe assinou um termo de responsabilidade por qualquer dano ao material. Mas (tinha outros mas) se colocarmos tudo na garagem, não vai sobrar espaço para o carro. Básico! Ok, uma parte vai para a copa. A mesa vai um pouco mais para o lado, o carrinho de chá – sim, ela ainda tem isso! - entra na cozinha. Agora só faltava tirar as roupas e tudo o mais de dentro dos armários e pronto. Tudo certo, só esperando o montador. A bagunça duraria um ou dois dias no máximo. Foi o que pensamos.
Como surpresa pouca é bobagem, no dia seguinte veio a notícia de que o montador não viria mais porque...porque havia brigado com a mulher e decidido voltar para a sua terra, de mala e cuia. Agora, pergunte: a loja tinha outros montadores? Na antevéspera de Natal? Impossível! E qual era a previsão? Fazer previsões em época de final de ano é complicado. Ou seja, minha família estava fadada a viver no mais completo caos por tempo indeterminado,  só por causa de problemas conjugais alheios.
Roupas amontoadas pelo chão e sobre as camas, as novas misturadas com as velhas (na verdade, mais velhas do que novas), cadernos do colegial, antigos diários, fotografias, coisas que estavam lá no cantinho escuro há muito tempo ou perto do teto, inalcançáveis, vêm à tona. Difícil se desfazer dos ursinhos carinhosos da infância, dos brinquedos, das camisetas rabiscadas pelos colegas da escola. É nessas horas que a gente percebe o quanto se agarra ao passado, mesmo que ele esteja lá só para empoeirar, e mais nada.
 Lembranças e a saudades um tempo não tão distante. Evidente que a maior parte daquilo não caberia dentro dos armários novos. E por que deveria caber? Afinal, as coisas realmente importantes, a memória se encarrega de guardar. Na segunda-feira seguinte vieram os montadores e o caos durou mais alguns dias. Depois de tudo terminado, digo que valeu a pena.

Abrir, reviver, doar, renovar, reinventar, limpar e organizar os armários dentro e fora de si, para guardar só o que realmente importa. Esse é o espírito do ano novo. Pode parecer difícil num primeiro momento, mas à medida em que os armários externos se esvaziam, os internos ficam mais cheios. E a alma... fica mais leve.

 Depois dessa história, não podia deixar de botar umas fotinhos do meu quarto para vocês verem.


Armário - ainda não está 100%, pois falta a porta espelhada

Cômoda

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Desejos de Natal... e de todo dia


Então é natal. E não são só as ruas que se enchem de luz. As pessoas também. Brilham os olhos, os sorrisos, a esperança. É um renascimento, um recomeço. Famílias separadas se unem, pessoas desconhecidas se cumprimentam. O agito típico das grandes cidades já não parece um transtorno, afinal, é por uma boa causa. Crianças valem-se do seu direito, viajam na fantasia e divertem-se como nunca. E os adultos permitem-se resgatar a criança dentro de si.

Essa é a tal “magia” do natal que transborda em todos nós, mesmo em quem não é cristão. Quem é que nunca sorriu ao ver a figura do Papai Noel? Ou não se arrepiou ao ouvir um coro de natal? Que ser humano digno de ser “humano” não se sensibiliza ao ler a cartinha de uma criança cujos pais, sem condições de lhe dar um presente, apelam para alguém que faça as vezes do bom velhinho e lhes proporcione um pouco de alegria nessa data? Isso é o que eu chamo de acreditar em papai noel e, mais do que isso, acreditar em seus sonhos.
Por isso, meu desejo de natal é que essa chama permaneça acesa durante todos os dias do ano, que a gente nunca se esqueça do brilho nos olhos, do sorriso, e que nunca deixe de lado a esperança. E isso, meus amigos, só é possível quando estamos junto das pessoas que amamos  e vemos os outros como irmãos, deixando aflorar a criança que há dentro de nós.
Piegas demais? Pode ser. Mas não custa nada deixar o sapatinho na janela. Vai que aparece alguma coisa lá, né?

Feliz Natal e um ano novo cheio de novos desejos realizados!


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Desabafo de uma PDD - Pessoa desempregada (quase) desesperada

Há quatro meses (Já)? Entre dias que passam rápido e outros que se arrastam como os 10 minutos de trailer no cinema, vida de desempregado é como computador em modo de espera. Diminui o consumo de energia, mas está sempre ligado. Ou como esperar um sinal do cara depois do 1º encontro.  Não dá para sair do lado do celular e desconectar da net.  Ele pode aparecer e, se você não estiver por perto, dá merda.
Não digo que essas férias forçadas estejam sendo ruins. Meus cabelos brancos até diminuíram (dos 10 que surgiam toda semana, impetuosos e insolentes, agora aparecem 3 ou 4, no máximo). Dizem até que emagreci. Não desperdiçar pelo menos  ¼ das 24 horas do meu dia dentro de um ônibus parado no trânsito também é um alívio. Escrever quando quero, como estou fazendo agora. Ser dona do meu tempo, isso é liberdade. Mas infelizmente nada disso pode me livrar do pesadelo que é ver minha conta bancária pedindo socorro e não ter por onde socorrê-la; perceber que o ano acabou e nada de 13º...
 O desempregado fica sempre em stand-by, nunca sabe quando vai poder dar o próximo passo. E o pior é que são tantos os passos a dar: comprar aquele apê que tanto sonhou, mas achava que ainda não era a hora, fazer aquela viagem ma-ra-vi-lho-sa, pintar a casa, cujas  paredes estão implorando por tinta nova há séculos etc etc.
Perdi a conta de quantas entrevistas já fiz – será que devo  me orgulhar ou me envergonhar disso? - enfim, ainda não rolou a “ química”. Quando perdi o emprego, dizia-se que o mercado estava aquecido, principalmente para pessoas como eu. De fato, estava, e acho que ainda está. As empresas estão contratando PCD´s , PDF´s, PPD´s, PNE´s (ou seja lá qual outra sigla queiram inventar) a rodo.
Ok, isso é ótimo. Embora não devesse, a lei de cotas para deficientes é necessária.  Mas aí o telefone toca e do outro lado da linha o recrutador diz assim:
SITUAÇÃO A:
R:  Estamos realizando um processo seletivo para pessoas com deficiência, você teria interesse?
EU: Sim, tenho. Mas quais são as vagas disponíveis?
R: Ah, ainda não sabemos. Vamos primeiro selecionar os candidatos.
EU : ...
Espera aí: quando a gente vai pra uma entrevista de emprego, costuma querer saber qual é o cargo ao qual está se candidatando, pelo menos é o mínimo que se espera, certo? Errado, a PCD nem sempre sabe.
SITUAÇÃO B:
R: Peguei seu currículo no site tal.  Você teria interesse em participar do nosso processo seletivo?
EU: Claro. Mas quais são as vagas disponíveis?
R: São vagas na área administrativa.
EU : Mas eu sou formada em comunicação social. Tenho uma experiência de 4 anos na área, contando com o tempo de estágio, 5 e meio. Conforme consta no currículo...
R: Ah sim, claro.  E qual a sua pretensão salarial?
EU : (a pretensão salarial não pode ser mais de R$ 1000). Mas a minha, é.
Do outro lado da linha, silêncio. Depois de alguns segundos, a resposta:
R: Eu vou verificar com meu superior se nós temos vagas na sua área e também na sua pretensão salarial e te dou um retorno ok?
Fim de papo. É claro que ela não retornou a ligação. Porque como é que eles vão suprir a lei de cotas se tiverem que pagar um salário mais alto? Como eles vão contratar PCD´s se não for para um cargo de auxiliar/operacional?  E quem tem graduação, experiência, não pode almejar algo mais no mercado de trabalho  - nada além do direito de trabalhar  na área profissional que escolheu? Não. A maioria das empresas (tomando o cuidado para não generalizar) acham que eles vão aceitar qualquer cargo e salário. Mesmo que seja um profissional qualificado e com curso superior.
Mas afinal, porque é tão difícil para as empresas realizarem um programa de inclusão que considere não só as necessidades delas, mas também as do candidato, como plano de carreira e acessibilidade, por exemplo? Outro dia, numa entrevista, o selecionador me disse que não teria me chamado se eu fosse cadeirante, pois a empresa não tinha espaços adaptados para eles. Nem mesmo um banheiro!  Quer dizer, se um cliente dessa empresa  usar cadeira de rodas certamente ela o perderá já na porta de entrada. Disponibilizar vagas para deficientes: é só isso que entendem por inclusão?
Inclusão responsável, não apenas para atingir cotas, é não direcionar vagas para portadores de deficiências, simplesmente procurar por aqueles que tenham o perfil das vagas já existentes; é oferecer as mesmas oportunidades de carreira (com o mesmo nível de exigência , claro);  é ter espaços adaptados a eles (toda PCD precisa de adaptações nos espaços, não apenas o cadeirante. No meu caso, por exemplo, é muito importante ter corrimões nas escadas);  e o que eu considero mais importante: valorizar o talento de cada um em suas respectivas áreas.
Parafraseando a velha e boa música dos Titãs: A PCD não quer só comida, a PCD quer comida, diversão e arte... de preferência conquistados com um trabalho do qual possam se orgulhar. Porque o que nós todos queremos é unir o útil ao agradável. Encontrar o equilíbrio que só se tem quando se faz o que gosta. Será que é pedir muito, senhores RH´s?



domingo, 7 de novembro de 2010

Náuseas nazistas

Toda vez que vejo filmes com referências ao nazismo sinto náuseas. Vontade de vomitar. A palavra imediatamente remete a isso. Age feito um soco no estômago. A cabeça gira. Curioso é o fato de que a ficção sempre dá um jeitinho de revisitar esse capítulo triste da nossa história, uma parte que ninguém gostaria de ter para contar.
E se fôssemos  vivos naquele tempo? Alemães ou judeus? Teriamos sangue frio para aceitar a morte de milhares de pessoas – seres humanos, embora não fossem reconhecidos como tais- pelo simples fato de eles serem de origens diferentes de nós? Ou para, na segunda hipótese, esperar pacientemente nos campos de concentração, trabalhando como escravos, sofrendo as mais absurdas torturas e rezando para que morte prematura, porém inevitável, chegasse mais depressa?
O Führer deixou para as gerações que sucederam o legado da intolerância, da crueldade e da miséria humanas. Nos ensinou que, quanto mais limitada a mente de alguém, maior deve  ser o estrago causado ao seu redor.  O que dói é pensar que as vítimas tinham como único objetivo  sobreviver; isso era tudo com que podiam sonhar. E quantos Führers ainda existem por aí afora? Há resquícios dos ideais nazistas por toda parte: na ditadora que ocorreu anos depois, nas favelas, no tráfico, no crime organizado, na política, na desigualdade e no preconceito contra as diferenças.  É incrível como, passados mais de 70 anos, isso ainda condiz com a nossa realidade.
Se eu fosse alemã, seria inconformada. Se fosse judia, seria resiliente, mesmo diante da minha impotência.  Cuspiria na cara dos generais. Aliás, já matei os homens do Reich diversas vezes; não só matei como torturei, dei pontapés nas costelas, afoguei, quebrei osso por osso (minha mente é predadora de assassinos). Na oportunidade de encarar o demônio em pessoa, tocaria fogo nele, mesmo sabendo que meu destino seria também virar churrasquinho ou comida para os porcos. Pouco importa,  o sacrifício teria valido a pena.
Hitler precisou de muita gente para matar, mas não para morrer. Embora não tenham faltado inimigos que tentassem mandá-lo para o inferno,  acabou vítima de sua própria armadilha, suicidando-se com um tiro. E esse foi seu único gesto benevolente, que realmente demonstrou seu amor à pátria. O corpo, não por acaso, virou churrasquinho daqueles bem indigestos. Infelizmente, o mal-estar causado por ele não passará nunca.
Obs: Alguns filmes que ilustram esse texto:  A lista de Schindler, O Menino do Pijama Listrado, Operação Valquíria, Bastardos Inglórios e Um Homem Bom (trailer abaixo).



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Pais de 70

Eu tenho um pai de 70 que tem cara de 40. E posso dizer, com conhecimento de causa, que os pais de 70 são muito melhores que os de 40.
 Os pais de 70 não se enfurecem mais, no máximo ficam emburrados . Os pais de 70 querem fazer o que não tinham tempo aos 40: jogar buraco e almoçar com você só para roubar batata-frita do seu prato. E adoram competir com as formigas para ver quem devora mais rápido uma barra de chocolate – só porque o “mala” do médico o proibiu de comer doces afirmando que açúcar é veneno. Pelo visto, ele e mais 99,9% da população mundial vão preferir morrer envenenados.
Os setentões dizem que te amam sem um pingo de vergonha, mesmo que você, aos 20 e poucos, a tenha. Na verdade eles não estão nem aí para isso, só  têm pressa de dizer e repetir, porque sabem que nessa idade a gente já não pode mais se dar ao luxo de ter desses pudores tacanhos da juventude, que, vamos combinar, são bem esquisitos. Pode haver coisa melhor para se dizer a alguém?
Eles não se importam que a gente chegue tarde em casa, desde que tenham a ficha completa do indivíduo. Apesar de se preocuparem muito com essa sua mania de ser seletiva demais (ou de menos), eles sabem , pela própria idade, que provavelmente você já seja grandinha o bastante para escolher um.
Os que não são avôs estão convencidos de que, se depender de você, não será nessa encarnação que eles levarão os netinhos para brincar na praça, do mesmo jeito que faziam contigo até completar 12 anos. Mas como a esperança é a última que morre, deixam claro que morreriam mais felizes se tivessem um menino daqueles bem capetinhas para ensinar a trapacear no baralho e no dominó ainda nessa vida mesmo, -  agora, o futebol terá de ficar para o pai, já que suas pernas estão mais pra lá do que prá cá.  E finalmente sentenciam: “Não, minha filha, não é que eu queira pressioná-la. É apenas para lembrar que você já não  é mais uma adolescente e que está na hora de correr para dar conta do recado... talvez daqui há 10 anos já seja tarde demais para ambos”. Nem precisa falar, pai. É como ter um post-it amarelo permanentemente grudado no cérebro.
Mas o que os pais de 70 querem mesmo é colo, com todo o direito que lhes cabe, afinal quantas vezes o colo dele já te amparou, fazendo cafuné até dormir? Agora é a sua vez de retribuir, fazendo a sobremesa que ele mais gosta (só de vez em quando) e lembrando a hora certa de tomar o remédio, ainda que a sua memória seja pior do  que a dele.  É ao seu lado que o menino-grande deixará rolar todas as lágrimas que ele não chorou durante todos estes anos quando você estava por perto, só para não demonstrar fraqueza, para dar exemplo... mal sabe ele que  exemplo é o que eu tenho agora: de pai, de amigo, de contador de histórias, de homem batalhador, de vida. Outro dia até me perguntou o que ia ganhar de dia das crianças...Espertinho, não? É, esses pais de 40 realmente têm muito a aprender.

Olha só o meu pai aí . Tem ou não tem cara de 40? Tá bom, 50, no máximo !