quarta-feira, 27 de julho de 2011

Uma vida completa em 3 anos

Faz tempo que não me inspiro a postar nada no blog, mas, quando li esta história, achei que tinha que registrá-la aqui. Uma porque é a representação real do último texto que publiquei . Ambas tem exatamente o mesmo enredo, embora  uma delas seja ficção. Outra porque acredito que casos como esses devem ser divulgados tanto quanto possível, para entendermos que é preciso viver ao máximo - eu sei que todo vive dizendo isso, mas  fazer é outra coisa -   e que a esperança é a última que morre ou que, enquanto há vida, há esperança- mesmo! Não estou dizendo que eu sou Poliana, talvez eu insista tanto nisso justamente porque não aproveito a vida como deveria e nem sempre consiga encarar tudo de maneira tão positiva. A vida pode  ter histórias alegres ou tristes. Mas, independente do sentimento que passam,  todas as que tocam a alma merecem ser  contadas.

PS: Importante dizer que escrevi o conto há alguns sete ou oito anos, ou seja, qualquer semelhança terá sido mera coincidência.



Foto: BBC 

Jovem conta que viveu intensamente os últimos 3 anos de vida. Ele apaixonou-se e casou.


Jovem com câncer diz que viveu "uma vida completa" em 3 anos

Ele faleceu três anos após o diagnóstico e dedicou-se a aproveitar ao máximo o tempo que tinha

Alex Lewis foi diagnosticado aos 17 anos com câncer nos ossos e passou por um tratamento intensivo contra a doença, sem sucesso. Ele faleceu pouco depois do seu aniversário de 22 anos. Durante os últimos três anos, ele experimentou o que muitas pessoas levam toda a vida para conseguir, inclusive conhecer e casar com o amor de sua vida. Em seu último ano, ele se apaixonou e casou-se com a namorada, que ficou ao seu lado até o fim.

A história de Alex foi tema do documentário "Alex: A Life Fast Forward" (Alex: Uma Vida Acelerada, em tradução livre), do canal de TV britânico BBC Three. O garoto foi diagnosticado depois de sentir dor no braço por meses. "Ele jogava muito tênis e futebol americano, por isso imaginou que havia distendido alguns músculos, mas a dor não desaparecia", disse o diretor do documentário, David Dugan, à BBC.

Quando finalmente recebeu o diagnóstico, o câncer já havia se espalhado para seus
pulmões. Ele passou por uma intensa quimioterapia e um dos ossos em seu braço foi substituído por uma prótese de metal. Mas apesar de cirurgias e radioterapia, os tumores continuaram a se espalhar. Segundo Dugan, quando começou a enfrentar a perspectiva de morrer, Alex jurou viver cada dia com o máximo de energia que pudesse. "(A doença) Faz você compreender como a vida é preciosa. A vida é maravilhosa, na verdade, mas para aproveitar cada minuto você precisa olhar para tudo de uma maneira positiva", disse Alex, no documentário.

Enquanto realizava as diferentes etapas do tratamento, ele decidiu fazer viagens de aventura. Entre elas, pular de pára-quedas na Nova Zelândia, andar de buggy nas dunas de Dubai e mergulhar após saltar de um penhasco na Cornualha.

'Beijo inesperado'

Em seu último ano de vida, durante uma festa em Swansea, no País de Gales, Alex conheceu Ali Strain, uma garota que
havia visto durante uma viagem para encontrar amigos na Austrália, e se apaixonou. "Foi um beijo inesperado e depois disso, tudo foi muito rápido. Eu pensei que esta era a garota com quem gostaria de passar o resto da minha vida", disse o garoto ao diretor.

O casal começou a namorar e Alex a pediu em casamento três meses depois. "O apoio mútuo e carinho que eles compartilhavam um com o outro era, ao mesmo tempo, alentador e triste de assistir", diz Dugan.
Eles ficaram noivos e Ali se mudou para a casa da família em Oxfordshire para ficar com Alex. "Apesar de estar piorando fisicamente, ele amava ter alguém com quem dividir sua vida, e descreveu o tempo que passou com Ali como um relacionamento de seis anos que foi acelerado e condensado em cerca de três meses", afirmou o diretor, que conviveu com o casal.
Dugan conta que, na época, o pai de Alex, Andy Lewis, disse que o relacionamento de seu filho "fez com que ele começasse uma vida nova. Ele anda com um sorriso no rosto quando não sente dor".
No entanto, já no outono de 2010, os tumores de Alex já se espalhavam por seus pulmões e ele tinha dificuldades para respirar. "Ele tomava tanta morfina para controlar as dores que era surpreendente que permanecesse acordado, mas estava determinado a continuar fazendo festas e vendo seus amigos todos os fins de semana", diz Dugan.

'Momentos felizes'
Com sua família, Alex chegou a comemorar três natais como se fossem seu último. Em janeiro de 2011, o casamento com Ali foi realizado apressadamente, mas depois da festa, sua saúde deteriorou-se rapidamente. No documentário, David Dugan registrou o apoio que o garoto recebia da namorada durante pior momento da doença.
"Ele estava sentindo tanta dor, então eu só dizia 'lembre-se de todos os momentos felizes...pense na noite em que ficamos juntos em Swansea e pense em todos os seus amigos maravilhosos'. E isso o ajudou muito", disse Ali ao diretor. "Ele queria que sua família e amigos soubessem como havia gostado de sua vida e que não pensassem sobre o destino que ele teve.
Alex também quis ressaltar a dificuldade de diagnosticar o câncer ósseo para que outros adolescentes não sofressem o mesmo que ele", afirmou Dugan. "Pouco antes de morrer, Alex Lewis fez questão de dizer a sua família como acreditava que a vida que teve havia sido completa, apesar de ter acabado antes do tempo."

Fonte: IG/BBC

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Consolo

Um estalo a fez compreender o que aconteceu naquela noite de lua cheia e céu pintado de negro. Ainda não conseguia apreender o sentido de tudo. Ficava pensando que poderia ser uma piada, um sonho, uma brincadeira de mau gosto, mas não... era a verdade... a verdade que ela se esforçou para não enxergar. Seu coração está leve e puro agora, embora não tão puro quanto lhe pareceu aquele surpreendente olhar de anjo que um dia cruzou o seu. O que sobrou daquela pureza foram lembranças.

Não estava a fim de se recolher. Teve a impressão de que, se dormisse, seria impossível acordar no dia seguinte. Então resolveu ficar ali, contemplando a lua, muito mais consoladora do que qualquer ombro amigo.

Há coisas na vida que não tem explicação mesmo. E não era preciso compreender nada, apenas se acostumar com a idéia. Afinal de contas, tudo é passageiro, tudo é finito. Os bens materiais se acabam, os sentimentos e os melhores aromas se evaporam no ar. Com o ser humano não poderia ser diferente.

Se algum dia lhe perguntarem o que restou dele, ela responderá: eu. Porque ela era parte dele, a parte mais prática, menos emotiva, mas era a parte que ele mais gostava. E ele tinha algo de maravilhoso, o otimismo. Sempre procurando ver o lado bom da vida. No início, chegou a pensar que fosse ingenuidade, mas descobriu que era só um truque para fazer diminuir o peso do fardo que ele carregava... às vezes, isso até a irritava e dizia: será que não dá para você encarar a vida de maneira mais realista? Não dava. A realidade havia sido muito cruel com ele. Seu lugar era mesmo a fantasia, agora compreendia.

Eles se conheceram num bar, numa noite de sexta-feira. Ela estava curtindo uma fossa por ter levado um fora de um babaca que fingia amar. Na certa porque tinha medo de descobrir o que era o amor de verdade. Mas quando o viu ali, logo se encantou. Ele veio a ela com seu olhar doce e sorriso terno. Logo tornaram-se amigos íntimos; ela contou a ele sua decepção amorosa e ele a consolou como se se conhecessem há anos.

Concluíram, depois de algum tempo, que não há melhor forma de iniciar um relacionamento. Fazendo o caminho inverso. Começa-se descobrindo as fragilidades , os defeitos, os deslizes e prepara-se para não cometer os mesmos erros que causaram mágoa ao outro no passado. Elimina-se, então, tudo o que possa trazer a tristeza, e assim as pessoas ficam livres para conhecer apenas as qualidades um do outro e serem felizes. E assim foi por algum tempo...

Até que um dia ele contou a ela um segredo. Sentou a seu lado e começou a falar, com uma naturalidade assustadora, que tinha pouco tempo de vida. Ela achou que fosse mais uma das “peças” que ele costumava pregar, nas quais ela sempre caía feito uma patinha, fazendo-o soltar uma gostosa gargalhada. Nervosa, ela esbravejava, mas havia um jeito muito fácil de desarmá-la. Bastava um beijo para que ela ficasse mansinha de novo.

Bem, dessa vez ele tinha um ar sério, incomum. Ficou esperando uma risada debochada depois da sua cara de espanto, mas ela não veio. Então, abraçou-o, aos prantos. Ele preferiu o silêncio.

Depois daquele dia, resolveram não contar o tempo. Não sabiam sequer quando um dia começava e outro terminava; apenas viviam, juntos, batalhando pela vida. Os médicos não davam esperanças, mas ele resistia, queria vencer Deus pelo cansaço. Achava-se mais forte que Ele. Em momento algum deixou-se dominar pela fúria. Apesar de sua juventude, ele era sábio e lhe ensinou que a luta só termina quando o combatente dá o último suspiro. Era assim que ele pensava, e foi pensando assim que ela atirou na imensidão do mar as cinzas que restaram naquela caixinha de madeira que carregava junto ao peito. Afinal, a sua luta ainda não terminou.
Também publicado no Releituras .

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Insônia e dia dos namorados

No dia dos namorados, resolvi postar um texto que não escrevi por causa do dia dos namorados, mas tem tudo a ver. É bom ter essa insônia, especialmente se você tiver um(a) namorad(a)......mas, se não tiver, também vale. O que não vale é quando esse alguém é igual a ninguém,  quando está com você sem estar. Como diz o velho ditado, antes só do que mal acompanhada. Para viver o amor, temos que  perceber que a felicidade, a tal da plenitude tão esperada, tem que estar primeiro em nós mesmos. Assim fica bem mais fácil receber o amor do outro, não é mesmo? Leiam o texto e me digam.

Insônia

Chegou em casa de madrugada, louco  por umas boas horas de sono. Como de costume, atravessava o extenso corredor que levava ao quarto, quando algo além de seus passos quebrou o silêncio. Apurou os ouvidos. Pareciam gemidos roucos, sussurrados, pérfidos.  Estancou os passos no meio do corredor durante segundos infinitos. Pensou na vida. Em tudo o que era e o que tinha, no conforto daquela cama e dos braços daquela mulher que sempre o esperava há anos. Visualizou seu sorriso de carinho. O cheiro, o olhar sereno , a pele macia e branca que ficava ao seu alcance e que ele tocava de vez em quando, com certo tédio. Os lábios rosados e suculentos, aguardando o beijo que nem sempre vinha. De repente parou de pensar e as pernas voltaram a andar bem devagar, esperando que os ruídos cessassem. E começou a sentir um torpor, como se o corpo se desmaterializasse e somente o espírito vagasse .Ou como se sua alma  estivesse evaporando  à medida que a porta do quarto se aproximava, e os ruídos só aumentavam em volume e intensidade.

Talvez fosse melhor bater, pensou, antes  de perceber que a porta  estava entreaberta. Apenas um leve empurrão e o tormento estaria acabado. Mas os gemidos agora ecoavam nas paredes. Um vento forte escancarou  a porta, não revelando nada além da escuridão. Assim seguiu no seu passo, ainda mais lento, aproximando-se cada vez mais daquele som aterrorizante. Como lhe faltou a coragem de acender as luzes, imaginou a foice, com o sangue e a morte do traidor estampada nos lençóis brancos de linho que ela tanto gosta. Seria incapaz de lhe fazer mal, pois reconhecia o quanto fora boa para ele até então, porém, estava decidido a montar a cena do crime para que ela fosse considerada culpada pela morte daquele desconhecido com quem ela o humilhava.

Tateou no escuro, sentindo os lençóis de linho branco e sobre eles, o corpo quente que se contorcia em movimentos voluptuosos. Agora só se ouviam as respirações  - exaustas dela e tensas dele. Reconheceu a pele macia e branca que tocava, às vezes, ao se deitar. Mas antes que pudesse fazer qualquer movimento brusco, pôde ouvi-la sorrindo  e  lhe estendendo  os braços que continuavam a esperá-lo. Repousou a cabeça sobre seus seios redondos e o peito arfante. Ele não pôde conter as lágrimas. Tinha acabado de adquirir uma certeza que todos os maridos gostariam de ter: sua mulher não era adúltera. Era, sim, independente.  A boca permaneceu calada, mas seu corpo, não. Mandou o sono bater em outra porta e passou a dar mais valor ao que tinha em casa.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Entre os Nãos e o Sim




Não quero sonhar

Para não me iludir.



Não quero rir

Para não ter que chorar.



Não quero ir

Para não ter que voltar.



Não quero dormir

Para não ter que acordar.



Só quero, pura e simplesmente,

Amar.

 (Porque por trás de tantos rudes e insignificantes nãos, há sempre um sonoro e delicado sim! )

19/01/2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Meu encontro com Machado de Assis e outros gênios

 Reencontrando D. Casmurro


Naquela noite, cheguei um pouco atrasada à aula, que começaria pontualmente às 19h. O trânsito e a chuva são inimigos da pontualidade nesta cidade. Como muita gente havia faltado, sobravam cadeiras no círculo da sala, mas preferi sentar-me na mesma de sempre, dois lugares à direita do escritor, que sempre renegou o título de professor.
Como era de costume, colegas diziam seus poemas, entre um gole e outro d’água. A garrafa ficava sobre a mesa e, volta e meia, alguém se servia. Eu nunca tinha bebido daquela água. Nunca. Mas, naquela noite, havia corrido tanto que cheguei à casa esbaforida, a garganta seca implorando por um gole (na verdade, vários). Precisei de 3 copos para saciar-me.
Do canto da mesa onde me servia, tinha-se uma visão panorâmica do espaço. Observei mais atentamente as pessoas, notando que havia algo diferente. Não era só a chuva, o cinza gelado que embaçava os vidros e encobria as cores da primavera. Lá fora, ouço os sinos da catedral, ressoando na alma. Ninguém se abala. Continuam a recitar. Todos ali, recitando-se uns aos outros, entre memórias e goles d´água.
 - Adélia, que felicidade revê-la! Vejo que continua a versar lindamente, como nos velhos tempos, diz um Drummond entusiasmado.
- Isso é graças ao senhor, meu padrinho de letras.
- Não me chame de senhor que o senhor não está no céu coisa nenhuma. Lá no céu ninguém tem idade, isso eu posso garantir.
- E o poeta não envelhece, não é mesmo?
- Claro, claro.  Bela Clarice. Sempre preferindo a si mesma, não é?
-É o que me basta. Vim de um mistério, parti para outro, não foi você quem o disse?
- Disse, ou melhor, escrevi. E reescrevo. Ficaremos sem saber a essência do mistério.
Avancei alguns passos a fim de compreender melhor o que diziam. As conversas fluíam animadamente.
Guimarães Rosa e Manoel de Barros ocupavam-se em cumprimentos calorosos.
- Há quem diga que nossas escritas se parecem. – observa Guimarães Rosa
-Olhe, não sou dado a elogios, mas ser comparado a um escritor de sua magnitude certamente agrada meu coração. Juro que não vinha, pois não sou homem de aparições, mas sua presença me fez reconsiderar.
- Eu digo e repito que suas palavras são feito doce de coco. Assim mesmo. Não carece tanto salamaleque, que sou bicho do mato, feito tu. - sentenciou o mineiro, com uma pontinha de irritação.
 Nem precisava dizer.
Jorge Amado se aproxima, junto de Hilda Hist, que por sua vez compartilhava versos com Drummond, Clarice e Adélia.  Apressaram-se a dar boas vindas ao recém chegado.
 - Fez boa viagem, coronel? – perguntou Hilda
- Olhe, foi tranquila. Mas não me chame assim que sou um homem de bem, vice?
-É Verdade. Coronéis não são homens de bem. Na sua terra então...
-Vixe. Melhor nem falar. E tu, me diga: recebeste o livro autografado que te mandei?
-Como não? Recebi com muito gosto. Já não me pertence mais, porque sabe como é: dia desses apareceu uma universidade muito importante interessada nos meus arquivos, anos antes de eu ir-me embora. Tive de vender. Foram os seus, os de Lygia e de tantos outros. Mas foi por uma causa muito nobre, não foi? Afinal livro a gente não guarda na estante, guarda no coração.
Sobre Zélia, Jorge lhes explicou que não viera porque já não gostava muito de viagens para tão longe, mas que mandava lembranças a todos, fazendo questão de registrar esse encontro lá de onde estava, que não podia haver lugar melhor para tirar seus retratos do que de lá de cima.
Roberto Piva, o poeta anfitrião, começava a ficar um tanto impaciente, pois o convidado principal ainda não chegara.
-Estamos todos reunidos aqui buscando uma resposta. A resposta para a maior questão, a mais intrigante já lançada na literatura brasileira, aquela que nenhum de nós conseguiu responder.
- Mal posso esperar. Mas já passa das 20h. Será que vem mesmo? – observou Drummond, apreensivo.
- Decerto que sim, garantiu-me que vinha. E não é homem de faltar com a palavra.
Foi quando, repentinamente, perceberam que havia uma estranha ali.
- Quem é aquela senhorita? Não a conheço. Creio que não tenha sido convidada. – disse Piva.
- Talvez seja uma espiã – replicou Clarice.
- Ou jornalista! – palpitou Adélia.
-E tem diferença? – questionou Piva.
. Foi a obscena e amável Senhora D quem veio em meu socorro.
- Não sejam tão implicantes! Ela é das nossas, não estão vendo? Quem mais poderia ser nesse nosso templo? Está aqui para aprender, tanto quanto nós. A diferença é que ela é jovem, e nós já somos velhos e cansados. Ah, tenho tanta inveja de ti, menina. Tantas coisas ainda a descobrir, tantos mundos a criar, tantas palavras pela frente. Nós não temos mais essa sorte, não é, senhores?
- Como é teu nome, minha jovem? – interveio o lacônico Manoel de Barros.
- Fátima – respondi, quase sem voz.
-Um nome sagrado, sabia? Junte-se a nós, por favor – pediu Drummond, com a candura de sempre.
Santo Deus! Meus delírios já estavam indo longe demais. Pensei em sair dali imediatamente e procurar um psiquiatra, como já me aconselhou, certa vez, minha irmã. Parar definitivamente com essa mania de inventar histórias e confrontar-me com a realidade. Mas, definitivamente,  minha curiosidade era maior do que minha vontade de sair correndo.
A esta altura, íamos perdendo as esperanças de que o convidado ilustre aparecesse. Nossos rostos transpareciam decepção. Clarice, Manoel e Adélia estavam decididos a partir, só não tinham ido ainda porque Rosa insistia em detê-los.
Os sinos da igreja badalam mais uma vez. Raios e trovões ressurgem, mais raivosos.  É quando a luz pisca e um rosto é iluminado por um relâmpago.
- Aonde diabos eu vim parar! Querem que o mundo caia sobre a minha cabeça? – esbravejou o homem na porta, ensopado, enquanto chacoalhava sua sombrinha e pendurava a capa.
- Imaginem que fiquei atolado no caminho. Minha charrete quase desmontou-se inteira! Pobres cavalos! Bem que haviam me dito que esse mundo estava muito diferente, mas não pensei que fosse tanto.  Afinal, onde estão os bondes, as charretes? Não há mais cavalos? Esses transportes motorizados são uma temeridade, soube que matam muita gente de atropelamento. Isso sem falar na poluição que causam.
Na tentativa de acalmá-lo, alguém lhe oferece um copo d´água.
- Vê os meus bigodes, meu filho! E meus óculos! Mal consigo enxergar! - responde, indignado, desembaçando suas lentes com um lenço e passando-o pelo rosto. Não, acho que já tomei água o bastante, obrigado.
Seguiram-se alguns momentos de catarse total, interrompidos pela sua impaciência, a fazer jus a um Dom Casmurro.
-E então, nobres colegas. Vejo que nenhum de vós é de meu tempo, mas certamente conhecem minha obra.
Claro que sim, verdadeiras obras-primas da literatura – declara Guimarães Rosa
Sem dar muita importância aos elogios,o recém-chegado pediu que fossem logo ao que interessava.
Drummond pediu a palavra:
- Bem. Nós, que estamos aqui representando a todos os escritores brasileiros e admiradores de sua obra, convivemos com um enigma criado pelo senhor, de modo que o convocamos na tentativa de esclarecer o mistério que ronda as mentes dos seus leitores há mais de um século.
O velho parece surpreso:
- Enigma? De que se trata?
- O senhor não sabe?
- Não.
- Nem desconfia?
- Ora essa, se eu soubesse já o teria dito!
 E, quem diria, é Clarice quem toma as rédeas e trata de objetivar a coisa:
 - Mas afinal, a dúvida  que todos aqui querem esclarecer é: Capitu traíra ou não Bentinho?
Com um semblante aliviado, o escritor recosta-se no assento e ri. Um riso carregado de escárnio, que ocupa todo o espaço. Gargalhadas rompem as paredes da casa; atravessam a praça, o calçadão, até confundirem-se com os sinos da igreja.
 É quando o professor, que não gosta de ser tratado como tal, me traz de volta à aula num estalar de dedos.
- Ah, desculpe! Não ouvi sua pergunta. Pode repeti-la, por favor?
- Estávamos falando da obra de Machado de Assis, Dom Casmurro. Perguntei se você acha que Capitu traiu Bentinho ou não.
Naquele momento, a única resposta que me ocorreu foi a seguinte:
- Se o próprio Machado de Assis não se preocupou em responder a essa questão, quem sou eu para arriscar?

Texto escrito na oficina de criação literária da Escola Livre de Literatura de Sto. André, sob orientação do escritor José Geraldo Neres.







quinta-feira, 7 de abril de 2011

Definitivamente é o caos

Hoje o Brasil acordou com mais uma daquelas notícias que chocam e envergonham. No RJ, Um demente que, num dia ensolarado de outono, resolve sair de casa dando tiros para se distrair, como se praticasse um esporte. E o que é pior, dentro de uma escola. E mais gente inocente sendo morta, crianças, que nada tinham a ver com a revolta e com a infelicidade de um assassino. Dezenas de famílias arrasadas pela violência (olha ela aqui, de novo), sem sequer terem tido a chance de perguntar: por quê?
Claro que a chacina não é a primeira nem será a última. Com a tragédia de Columbine,em 1999, os americanos fizeram escola. Até filme, fizeram. Em 2003, o documentário Tiros em Columbine ganhou o Oscar de Melhor Documentário, o que, na minha humilde opinião, atribui aos autores do crime a indevida aura de heróis, servindo de inspiração para outros jovens insanos, mundo afora. Deixo aqui alguns versos como desabafo, mesmo sabendo que nenhuma palavra será suficiente para calar a pergunta das famílias que perderam seus filhos, sobrinhos e netos: por quê?

Notícias sobre o caos

Numa noite qualquer
Assisto ao telejornal,
É quando sentada, perplexa, reflito
E me pergunto:
Que faço eu neste mundo?
Que é torpe, triste,
Cruel, solitário.
Nascemos para viver no caos?
Suportando a exibição de chacinas constantes
E da cara-de-pau de nossos governantes?
O império da miséria e da (in) justiça dos homens,
Do revolver, que em descuido, surge
Revolto, contra a vida.
Da fúria das águas,
Dos ventos,
Que levam consigo
Bens e esperanças,
Deixando apenas desalento .
Onde mesmo o sol de cada dia é perigoso
Porque uma certa camada de ozônio se faz escassa
Não resistiu às agressões do homem...
Sobrevivemos vendo o mundo se acabar em guerra.
E milhares de vidas que se encerram
Num circo de horrores?
Aguardando a cura da AIDS e do Câncer
 Ao longo dos anos.
O fim do desemprego,
Com mesa farta e educação para todos.
Mas as boas notícias, essas sim, tardam a chegar .
Por quanto tempo mais
Espera a impotente humanidade?
Perdoe minha ansiedade.
É que o tempo
é o rei da impaciência.
Enquanto os ponteiros correm velozes
Há mais gente que chora,
Há mais gente que morre
Sem saber por quê...

Acho que está na hora de desligar a TV...





sexta-feira, 1 de abril de 2011

Hoje é dia de inventar verdades

Pode ser grande ou pequena. Pode ser bonita ou feia. Pode causar alivio  ou dor, ser o golpe de sorte ou de azar, a pedra ou o degrau. Pode ser plantada por amor, como muitos alegam para se safar,  mas, quase sempre, gera o ódio.
Já diz o ditado que uma mentira, contada muitas vezes, torna-se uma verdade. Ou que ela  nada mais  é do que  uma verdade inventada. Uns acham que ela é simplesmente injustificável seja qual for a circunstância; outros defendem que depende da situação. Eu sei – e quem é do bem também – que a verdade é sempre o melhor caminho, mas a mentira sempre está entre nós, nos tentando a escolher o caminho mais fácil. Nos dando asas para voar mais alto e assim nos machucarmos mais seriamente na hora da queda .
Está aí o 1º de abril para provar que a mentira conquistou seu lugar nesse nosso mundo politicamente incorreto. Eu ja contei uma, você também já contou e não existe nada mais comum e mais condenável, de forma que é justo que num único dia do ano a gente possa mentir sem culpa, fazer disso uma brincadeira de criança, uma piada engraçada, sem aquela ideia de natureza diabólica. Eu sempre fui ingênua o bastante para cair nas brincadeiras dos amigos e morria de raiva. Ao mesmo tempo, sentia um alívio quando a mentira era muito cabeluda. A verdade é que, se todo mudo fosse capaz de mentir somente hoje, talvez viver fosse menos complicado.  Por isso aproveite esse dia para dizer as verdades que não se pode dizer todos os dias, ou então, aquilo que você gostaria muito que fosse verdade,  depois solte o clássico: 1º de abril! Sem esquecer da gargalhada no final, certo? Ah, e claro, faça um esforço para não "inventar muitas verdades" no resto do ano.